quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da tangerina ao chocolate do Marrocos

Depois de rodarmos por quase 1 mês e meio na Europa tudo começou a ficar muito parecido e de certa forma o frio que tanto procuramos passou a nos limitar bastante. Resolvemos então dar novos ares às nossas andanças e colocar em prática um plano que estava ficando meio de lado. “Vamos para o Marrocos”, voltar às loucuras e confusões. No noroeste da África, um país árabe, que foi colonizado pela França e com grande influência espanhola. Dá pra ter uma noção da mistura?

Pra chegar lá foi um pouco complicado. Em Milão nevava demais e justamente quando estávamos dentro do avião acabaram cancelando todos os vôos por causa do mal tempo. Resultado... tivemos que passar duas agradáveis noites esperando o próximo vôo no aeroporto.

Enfim, aterrizamos na exótica e monocromática Marrakech, uma das principais cidades marroquinas.


Marrakech atrai não somente os turistas europeus, mas também muitas pessoas que vivem em outras partes do país, procurando fazer compras nos mercados-labirintos e principalmente entretenimento na praça central da medina (cidade medieval) Djemaa el-Fna.

Essa praça sim é algo extraordinário. Um grande espetáculo onde centenas de pessoas se aglomeram ao fim de tarde para comer na farta e agitada feira de comidas típicas que é montada todos os dias e para escutar os engraçados contadores de histórias, encantadores de cobras, músicos e vendedores de remédios milagrosos. É um verdadeiro caos de sons e de cheiros onde tem gente tentando fazer qualquer coisa pra levantar uma grana.


Uma coisa que eu (Augusto) nunca esperava ver no Marrocos (ignorância!) era neve. Logo que se chega em Marrakech o visual por trás da cidade é uma bela cadeia de montanhas nevadas e que possui até estações de esqui. Pois é, tava frio lá também! Eu achava que tinha virado profissional em mapas e em nos guiar, mas lá a única saída foi esquecer o senso de direção e colocar em prática minhas habilidades poliglóticas adquiridas ao longo da viagem (misturando francês, espanhol, português, árabe e inglês) e sair perguntando como se chegava aos lugares.

A gente se perdia o tempo todo nas ruas da cidade, sempre cheias de homens que se vestem como os "Sand people" dos Star Wars com sapatilhas de couro, capas e um capuz pontudo enquanto as mulheres como em todos os países árabes andam tapadas com lenços cobrindo a cabeça e o rosto. Entretanto, dos países islâmicos nos quais estivemos o Marrocos nos pareceu um dos mais liberais, com muitas mulheres nas ruas, algumas até andando descobertas, além de conviverem harmonicamente com uns poucos judeus e cristãos.


O Marrocos foi uma salvação pras nossas barrigas hehehehe. Na Europa, paga-se muito caro pra se comer bem e lá nosso orçamento acabou se refletindo na qualidade da nossa alimentação. Pelo mesmo preço de um sanduba meia boca europeu a gente comia um delicioso ensopado ou cuscuz de frango com vegetais (Tagine du Pullet e Couscous du Pullet) ou então um misto de porções de sardinhas fritas, batatas, azeitonas, berinjelas e de feijão, sob o olhar atento dos gatos que como no Egito dominam as ruas.

Tudo sempre acompanhado do tradicional pão achatado marroquino que eles utilizam pra pegar a comida, uma vez que lá não se usam talheres. É, mas Marrakech também pode ser traiçoeira. Por toda parte tem os espertinhos querendo passar a perna nos gringos e muitos assaltantes.

Dessa vez quase nos roubaram a máquina fotográfica de novo. Um safado tentou puxar a cordinha da máquina do bolso da Aline que por sorte estava presa ao dedo dela, o sujeito foi tão cara de pau que ainda saiu andando e olhando pra mim com uma cara de deboche. Não teve outra, levou um soco e quando ele tentou correr dei uma rasteira que o vagabundo acabou caindo, mas terminou por aí afinal estávamos com a máquina e não queria arrumar confusão.

Também fomos a uma feira onde pode-se encontrar de tudo, inclusive muitos produtos estrangeiros que certamente foram roubados dos quartos dos hotéis (um grande problema por aqui). De Marrakech decidimos acompanhar as montanhas Atlas e seguir rumo a Azilau, uma pequena cidade no caminho para Fés e que tem uma cachoeira de 100 metros. Me levantei muito cedo, mas como estava fora de temporada não consegui transporte a tempo de ir à cachoeira e acabei dando uma volta pela cidade.

No fundo acho que acabou sendo mais interessante me sentar com os locais para um café da manhã e subir uma montanha que proporcionou visuais belíssimos. Depois de mais de 8 horas de ônibus chegamos à Fés, a maior medina ativa do mundo.

Um verdadeiro labirinto de ruas estreitas com milhares de pequenas lojas brotando dos muros, onde os únicos meios de transporte que podem e cabem nas ruas são burros e cavalos. São prédios colados em prédios com as paredes sendo sustentadas por armações de madeira para não desabarem, tudo desorganizado, portas e janelas das casas como rústicos portais medievais e no meio de toda a bagunça uma escolinha primária. Deve ser bem difícil aprender algo por ali. Fés realmente nos surpreendeu.
A cidade também é muito famosa por seus trabalhos de mosaicos e pelos curtumes onde se tratam e comercializam artigos de couro que são encontrados em todo o Marrocos.


Seguindo rumo à costa fomos para Rabat, a capital do país. Tudo diferente, uma cidade ampla, mais organizada, com prédios imponentes e avenidas largas.

Nas ruas marroquinas vimos bastante mendigos e pedintes, principalmente idosos além da quantidade impressionante de cegos. Não conseguimos descobrir o porquê de tantos cegos no Marrocos e se alguém souber pode nos dizer!

Assim como o grande número de roubos, essas são algumas seqüelas de um dos maiores problemas que o país enfrenta, o desemprego. Na capital Rabat assistimos diversas manifestações organizadas em frente ao parlamento contra a falta de empregos bem como sobre a causa palestina e apesar dos ativistas que gritavam fervorosos contra Mc Donalds e Coca-cola tudo terminou em paz.

De lá para Asilah uma pequena cidade de veraneio que tem uma medina bastante especial à beira do oceano atlântico, toda bem cuidada com os muros pintados de azul e branco e com várias galerias de jóias e artes. Onde é que se ande muitas pessoas te oferecem chocolate. “Quieres chocolate de loco?” como nos abordou um.

Pois é, o tal do chocolate, também chamado de haxixe é um dos produtos mais comercializados no Marrocos. O consumo é proibido, mas mesmo assim muitas pessoas de todas as idades e classes sociais comercializam ou fumam tranquilamente com seus cachimbinhos sentados para prosear em frente aos cafés.

Fomos então para nosso último destino no Marrocos, Tanger a cidade mais próxima da Europa. De vez em quando a gente chega a algumas conclusões meio bestas, mas que são legais. Me lembrei do blog do Leo (que nos acompanha aqui no blog) falando quando descobriu o porque das cidades da Tailândia começarem com Chiang (significa cidade em tailandês).

Em todo o Marrocos as árvores mais características são as mexiricas (bergamotas), bonitas, todas carregadas, mas de uma qualidade que não dá pra comer de tão azeda. E só depois de chegar a Tanger acabamos sabendo que quem nasce lá é tangerino. Daí vem o nome da frutinha alaranjada que a gente gosta tanto aí no Brasil.

E antes de ir embora acabamos virando adeptos de um dos mais tradicionais costumes marroquinos, tomar chá com menta num dos inúmeros cafés espalhados pelas cidades. Sentamos no antigo Café Hafa de frente para o Estreito de Gibraltar e vendo a Espanha do outro lado passamos um tempo refletindo como uma faixa de apenas 14 quilômetros é uma barreira econômica, religiosa, lingüística e cultural tão grande, e que separa mundos tão diferentes.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Se embrenhando Europa adentro

Berlim, uma cidade que certamente exige um bom tempo para ser compreendida, decifrada. Levar em consideração tudo que se passou por aqui para entender como as coisas se transformaram no que são hoje. Infelizmente tempo não é algo de que dispomos, não tanto pelo tempo em si, mas pela questão da grana.

Se bem que em comparação com as outras capitais da Europa Berlim até agora foi a mais barata pela qual passamos (cerveja por 60 centavos). A capital da Alemanha, que já teve importância em tempos de guerra, que já foi realmente e inteiramente dividida por um muro e compartilhou dois sistemas, ultimamente é rica em arte, artistas e famosa por sua vida noturna.

Ficamos hospedados na casa do Arno, no lado leste da cidade e foi por lá que concentramos nossas andanças. Após alguns dias foi possível perceber que esse é o lado mais popular, mais turístico, com os museus, bares, clubs undergrounds de música eletrônica e tudo mais. O lado oeste é mais sofisticado e administrativo, o muro foi parcialmente derrubado, mas ainda existe uma séria diferença entre as Berlins de cada lado.

Há uma atmosfera própria e única, difícil de descrever, deve ser a cidade mais pichada do mundo, as pessoas bebem muito, em casa, nos bares, no metro, ah e sem esquecer que foi a maior concentração de parques de diversões que já presenciamos. Em Berlim nosso Europass (bilhete de ônibus) expirou, acabou mesmo e tivemos que pensar em um novo jeito de viajar. Os ônibus estavam completamente lotados para as próximas semanas já que era época de festas e o preço de aviões e trens nem se fala.

Confesso que botar o dedão e pedir carona chegou a passar pela nossa cabeça só que com esse frio ficamos com medo de congelar nas estradas. Foi então que descobrimos algo que funciona super bem principalmente na Alemanha, se chama car pool. Nada mais é do que rachar a grana da gasolina. É assim: quem tem carro e vai viajar coloca os dados na internet e quem tiver interesse liga e agenda, o site é: www.mitfahrgelegenheit.de

Queríamos sair de Berlim e ir até Praga, no entanto só encontramos car pool até Dresden, que fica mais ou menos no meio do caminho. Uma das cidades mais bombardeadas durante a segunda guerra, que chegou a encabeçar a lista do teste da bomba atômica e se não fosse pelo ataque do Japão a Pearl Harbor com certeza não estaria mais no mapa.

Hoje a cidade está parcialmente recuperada, alguns prédios na parte central acabaram de ser reconstruídos há apenas alguns meses. O que era pra ser uma passagem rápida acabou se estendendo por 3 dias. Joycie nossa couchsurfer nos convidou para passar o Natal com ela e seus amigos e é claro que a gente aceitou.

E foi assim a nossa noite natalina, após um mês de preparação intensa passando por diversos mercados de Natal e muito vinho quente depois, finalmente chegou a grande noite, com direito a peru, sobremesa que a gente fez e cerveja gelando do lado de fora da casa, ho ho ho.

Partimos então para Praga, uma das cidades mais lindas, com a arquitetura das mais impressionantes por onde já passamos. Uma pena que seja dado tanto enfoque ao turismo, tem vezes que parece uma procissão de turistas passando palas mesmas ruas e praças, fazendo as mesmas coisas, a gente queria conferir um concerto de música clássica, mas com esses preços não teve como.

Foi rateada nossa, não verificamos direito nossas respostas de pedidos para hospedagem e deixamos passar a oportunidade de ficar na casa de algum local, com certeza Praga deve ser bem mais que o que parece quando se sai do trajeto clássico. Nem por isso é claro deixamos de experimentar e nos deliciar com as cervejas tchecas, consideradas as melhores do mundo, inclusive a verdadeira e autêntica Budwiser (pilsener), não a americana falcatrua com o mesmo nome.

De Praga para Viena e lá uma sensação estranha, apesar de a cidade ser belíssima (linda mesmo), a impressão que tivemos foi a de que tudo estava de alguma maneira se repetindo, tudo muito certinho de mais, pode? Acho que bateu uma saudade dos tempos da Ásia. Felizmente encontramos a Sarah no nosso caminho, uma guria super gente boa que nos hospedou e nos levou pra cima e pra baixo nos mostrando tudo, o Castelo e seus jardins, os prédios de Arte Nuveau e a night vienense.

Chegamos a Budapeste uma noite antes do Ano Novo, queríamos ter um tempinho pra conhecer a cidade antes de nos prepararmos para a nossa festa. Ficaríamos uma noite hospedados na casa de uma couchsurfer e as demais num albergue por opção nossa.

A gente não tinha a menor noção do que estava a nossa espera. Chegamos à casa da menina já era tarde, tudo certo como de costume. Ela foi simpática e atenciosa, conversamos um pouco, ela nos disse que morava com mais duas pessoas, mas que provavelmente não os conheceríamos já que eles haviam saído com amigos e talvez só voltassem no outro dia. Lá pelas tantas chega uma gurizada em casa, bem jovens, tipo uns vinte anos. Eu (Aline) estava concentrada na internet pesquisando passagens de volta ao Brasil, apenas cumprimentei-os e continuei atenta ao que eu estava fazendo.

Em seguida eles começaram a convidar insistentemente a gente para sair. Eu disse pro Preto que eu estava bem cansada e queria poupar minhas energias para o réveillon, mas sugeri e até insisti com ele para que ele fosse, pois sabia que ele não estava cansado. No final não entendi porque ele estava tão tenso e relutante em dizer que não. Era uma da manhã quando eles saíram e a gente foi deitar. Perguntei pro Preto por que ele não quis sair e a resposta foi “tu não viu?” e eu lá com aquela cara de quem não sabe o que está acontecendo. Daí finalmente ele me explicou. Disse que os guris estavam com um bracelete com o símbolo da suástica passando de um em um rindo e tirando fotos.

Bah, por essa a gente não esperava, se deparar assim com neonazistas, quando realizei falei “vamos embora daqui agora, sabe-se lá o que se passa na cabeça dessas pessoas”. Daí o Preto me tranqüilizou, para onde a gente iria no meio da madrugada, sem reserva em época de ano novo, temperatura negativa lá fora. A guria que nos hospedou era legal, tinha muitas referências positivas na sua página do couchsurfer e não tinha nada a ver com os outros, inclusive depois ela veio se desculpar dizendo que eram apenas jovens que não tinham idéia do que aquilo realmente representa.

Mesmo assim dissemos para ela que ela tinha essa missão, de tentar fazer aqueles cidadãos caírem na real e mudar de atitude. Agora imagina a tensão, nós estrangeiros, cara a cara com nazis, mesmo que desse tipo. Raiou o dia e nos mandamos, dia de conhecer Budapeste e esquecer do sufoco. Já havíamos passado pela República Tcheca que é considerada Europa Oriental, mas foi na capital da Hungria que enxergamos a grande diferença entre as duas Europas. A arquitetura é belíssima como em todo o continente, algumas regiões são especialmente encantadoras, mas no quesito conservação as coisas não são bem assim.

A maior parte da cidade apesar de linda tem um aspecto bem velho, além disso vimos vários mendigos, coisa rara até então e em cada estação de metrô uma enorme concentração de bêbados e gente fazendo bagunça. Noite de Ano Novo não podia faltar lentilha e champanhe é claro.

Saímos com o pessoal do albergue para comemorar na rua lotada de gente apesar do frio (sensação térmica de 13 graus negativos) e depois com festa é claro, adeus 2008, o ano mais intenso de toda nossa vida, feliz 2009, que o que vier venha para o bem e de preferência seja especial e bem emocionante!!!

De Budapeste seguimos para Veneza na Itália, uma cidade construída entre os canais de uma ilha. É quase inacreditável que ela exista, assim toda amontoada, mas com muito charme é claro. Chegamos lá de baixo de neve, uma raridade em se tratando de Veneza e mesmo assim tudo estava lotado, fico imaginando como deve ser no carnaval ou no verão. Dizem que a quantidade de gente colabora para dificultar a manutenção da cidade, mas fazer o quê? Todo mundo quer passar por lá antes que ela afunde.

Última parada nesse post: Milão. Essa valeu, ficamos hospedados na casa do Gabriele, gente finíssima e sua família italiana de verdade com direito a polenta, risoto a milanesa e até um dog pra passear com a gente de baixo de neve na beira do rio.

A cidade em si não nos impressionou muito. Tirando o Castelo e a Catedral que o que vimos foi um verdadeiro shopping center a céu aberto com todo aquele povo fazendo fila na frente das Guccis e Pradas da vida esperando sua vez nas promoções. Definitivamente não é programa para a gente, portanto pé na estrada novamente.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Congelando na terra dos loiros e dos dias curtos

O que fazer quando o inverno chega mesmo? Fugir para um paraíso tropical se possível, certo? Errado, pelo menos para a gente. Já que estávamos no inverno do hemisfério norte decidimos ir em busca do frio de verdade e seguir rumo ao Círculo Polar Ártico. Nossa primeira parada na Escandinávia foi em Copenhagen, capital da Dinamarca, hoje uma pequena nação que também controla a Groelândia, mas preserva ainda o orgulho de ter sido o principal país viking de outrora. Lá existem algumas questões bem paradoxais, enquanto pesquisas mostram o povo dinamarquês como o mais “feliz” do mundo (satisfeito com sua qualidade de vida) as altas taxas de suicídio tanto dali como de toda Escandinávia sugerem o contrário.

Algumas características dos países do norte da Europa incluem bons salários e segurança profissional, as licenças maternidade variam, mas em geral a mãe pode ficar no mínimo um ano afastada do trabalho recebendo seu salário integral podendo estender esse período ganhando um pouco menos, mas sem perder o emprego e outra: o pai também tem um bom tempo pra ficar com o bebê. A impressão que se tem é de que tudo funciona, tudo é fácil, limpo, informatizado, dá pra resolver tudo na internet, ninguém te incomoda, ninguém tenta te passar a perna ou dificultar as coisas, cada um exerce a sua função e tem plena noção de que tem que fazer a sua parte.

Os impostos são altos, é o preço do sistema. Sistema que eles acham que está ameaçado e enxergam isso como um grande problema. Enquanto no Brasil lidamos com corrupção e violência, a Escandinávia e diga-se de passagem toda a Europa enfrenta uma verdadeira febre de imigração (principalmente de norte africanos e turcos).

Muitos dos imigrantes são ilegais e assim não colaboram em nada para o sistema, muitas vezes são responsáveis pela criminalidade, já que sem a papelada adequada não é tão fácil conseguir um bom emprego. Os imigrantes legais geralmente vivem em vizinhanças de imigrantes, verdadeiras bolhas e não interagem com as pessoas locais, não aprendem o idioma e colaboram para a manutenção do preconceito.

Em Copenhagen ficamos hospedados na casa da Aase uma senhora fantástica que além de nos deliciar com comidas típicas (o pudim de arroz foi o meu preferido) ainda nos contou um monte de coisas sobre a cidade e o país. Hoje em dia quem quer o título de viking tem que tomar banho de mar pelado todos os dias durante o período de um ano.

Dane-se o frio, acha que é coisa de louco, que ninguém faz isso? Que nada, tem muita gente que faz, em um dos nossos passeios depois de sair do Deer Park, um parque cheio de veados, visitamos uma praia e não deu outra.

Estávamos ali conversando, quase congelando e de repente chega uma senhora de roupão do nosso lado, tira tudo e se joga no mar peladona, depois de alguns segundos levanta, se enrola e vai embora como se nada tivesse acontecido e amanhã de novo, e depois de amanhã também. A Dinamarca também é o país do Hans Christian Andersen de vários contos de fadas como O Patinho Feio e A Pequena Sereia.

Visitamos a estátua da sereia, o forte, o centro, o Tivoli que é um dos parques de diversões mais sofisticados e bem decorados do mundo e símbolo de Copenhagen. Agora nada mais pitoresco que Christiania, um bairro surgido a partir de uma comunidade hippie, bem próximo ao centro. O lugar é inacreditável, com casinhas tão pequenas que parecem de boneca, outras com uma arquitetura bem diferente, na parte mais movimentada desde restaurantes vegetarianos até diversos cafés bem roots onde se comercializa todo tipo de droga.

Diferentemente de Amsterdam onde existem estabelecimentos legalizados e a galera fuma do lado de dentro, em Christiania o comércio é do lado de fora, bem escancarado e um monte de gente fica pra lá e pra cá fumando e andando pelas ruas. De lá seguimos para a Suécia, próxima parada Estocolmo.

Nada melhor do que chegar à cidade do Prêmio Nobel no dia da entrega do prêmio, né? É claro que a gente não sabia, foi pura sorte, mas foi por isso que conseguimos entrar no Museu do Nobel com direito a tour guiado tudo de graça.

Geralmente se paga pra entrar, essa é a parte chata principalmente para nós que nesta etapa européia da viagem estamos contando as moedas. Aqui em cima tudo é muito caro e além disso qualquer coisa que se queira fazer custa uns bons euros. Dos outros museus só vimos a frente durante nossos passeios para conhecer a cidade belíssima que fica espalhada em diversas ilhas bem próximas umas das outras.

Acontece que o melhor da Suécia ainda estava por vir, depois de mais de 20 horas de trem sempre em direção ao norte e sendo cada vez mais cercados por neve chegamos a Kiruna, enfim o esperado Círculo Polar Ártico. Se era neve que a gente queria foi neve que a gente encontrou, uma cidade relativamente grande e com uma baita infra, com supermercado, cinema, carros, tudo e assim no meio do gelo já que neva a maior parte do ano.

É linda demais, mas quem mora lá deve ter sempre um baita trabalho, todo dia limpar a neve da frente de casa, do carro, não é fácil. Para nós Kiruna foi a cidade das tentativas. Tentativa de ver a aurora boreal, tentativa de esquiar... logo que chegamos eu (Aline) estava tão ansiosa para ver uma aurora que me aventurei sozinha madrugada a dentro de baixo de muita neve numa trilha de uns 3 quilômetros. O Preto chegou muito cansado e capotou e eu resolvi tentar mesmo assim.

Na outra noite quando fizemos o mesmo percurso juntos só que dessa vez com céu limpo tive que admitir que com aquela neve seria impossível ver qualquer luz no céu. E o frio? Uma média de 15 graus negativos.

Durante o dia (que durava apenas cerca de 3 horas) fomos conferir a pista de esqui, ai ninguém merece a primeira tentativa de esquiar aos 26 anos. Levei vários tombos lindos, o pior era tentar andar quando tinha que subir num montinho de neve para pegar o elevador, sem chance, sempre escorregava pra trás e via as crianças passando por mim e rindo da minha cara...mas o pior mesmo era ver o Preto fazendo altas manobras com o snow board e eu lá congelada, fazer o que, né?

De Kiruna seguimos para Narvik, costa norte da Noruega. O caminho entre as duas cidades não tem explicação de tão bonito e se viemos até aqui e não vimos auroras boreais nem o sol da meia-noite, pelo menos pudemos contemplar a lua do meio-dia, coisas da natureza. Narvik fica localizada nos fiordes junto ao mar e a sensação térmica era de ainda mais frio, portanto não deu pra ficar na rua por muito tempo.

Queríamos muito conhecer Bergen que apesar de não ser a capital é uma das cidades mais importantes da Noruega, só que para se deslocar até lá era muito caro e difícil sendo assim nossa viagem seguiu rumo a Oslo.

Dessa vez quem capotou fui eu, cheguei lá e ainda saí com o Preto para dar uma olhada na cidade, no cais e no Museu do Munch onde está o famoso O Grito, mas no outro dia não teve jeito, sucumbi aos encantos de um dia na cama acompanhada de dvds. Depois me arrependi, pois perdi de conhecer um lugar pelo qual eu estava bem interessada, o Vigelandsparken, onde estão distribuídas diversas estátuas de pessoas fazendo coisas que todo mundo faz, mas geralmente não sob a forma de estátua.

Só que é assim, se o corpo pede um descanso é melhor não negar, principalmente porque a jornada continua!!!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Europirando

Chegamos à Europa!!! Sim e agora? Basicamente até então havíamos nos preparado de alguma forma para cada etapa da viagem, menos para cá. Também não tinha como né, a final quando começamos nossa aventura pelos quatro cantos do mundo esse momento estava tão distante... e não é que ele chegou.

Tivemos uma passagem pelo Reino Unido anteriormente, mas foi devido a uma escala para chegar ao Egito, só que dessa vez é pra valer. Hora de preparar o bolso e se proteger do frio para encarar o velho continente. Primeira grande pergunta: como se locomover entre as cidades e países? Todo mundo sabe que existem vôos super baratos dentro da Europa, mas é uma questão de sorte ou de antecedência para comprá-los fora que a taxa de embarque às vezes surpreende.

Sem esquecer que vôo polui demais e por este ano já esgotamos nosso limite, ficamos entre viajar de trem uma opção muito confortável ou de ônibus que custa a metade do preço. Adivinha qual foi nossa decisão? Compramos um bilhete promocional chamado Europass, que dá direito a um mês viajando de ônibus entre as principais cidades européias.

O preço 300 Euros foi bem salgado, porém o mais barato que conseguimos, infelizmente temos mais que 26 anos (quem é jovenzinho consegue um bom desconto), um bilhete equivalente de trem custa o dobro. E foi assim que saímos bem loucos Europa a fora. Sem destino certo, sempre escolhendo nossa próxima parada quando chegávamos a uma nova cidade. É porque o tíquete funciona assim. Só se pode marcar o próximo percurso uma vez tendo chegado ao lugar de onde se pretende partir, capiche? Felizmente dentro do couchsurfing (aquele esquema de hospedagem voluntária que utilizamos) há comunidades de “last minute requests”.

Um tipo de socorro de última hora para viajantes sem teto e sem rumo e graças a isso evitamos ir completamente à falência pagando diárias altíssimas em albergues. Salvando nossos preciosos Euros para um cineminha, uma cervejinha, essas coisas que a gente gosta né. Fora que ficar na casa das pessoas é o que há, sempre aprendemos um monte de coisas, trocamos músicas, idéias, experiências, é sempre bom. Aqueles que nos acompanham sabem que já filamos o sofá de jovens, coroas, famílias e todo tipo de pessoas que se possa imaginar.

Nossa primeira parada de volta à Europa foi em Madri, Juan nosso couchsurfer nos levou para uma noite de bike na cidade. Primeiro paramos em um bar onde se pede uma cerveja e se ganha de graça um prato de paella, dá pra acreditar?

Depois saímos para conhecer dois squats onde rolam altos projetos sociais, entre eles aulas de idiomas, creche, oficina de bicicleta, tudo gratuito, agora o melhor foi a loja de roupas, loja não, não sei nem como chamar... parece loja mas é só pegar, não precisa pagar. Bom pra nós que nos equipamos e ficamos prontos pra enfrentar o frio que nos aguarda.

Madri é belíssima, como de costume andamos por tudo, daqui pra frente, porém não vai dar pra caracterizar como de costume o nosso dia-a-dia na maioria das cidades européias. Primeiro porque foi muito corrido, em média a cada dois dias enfrentávamos uma noite sentadinhos num ônibus noturno, segundo porque na Europa visitamos muitos prédios e museus e se começarmos a descrever arquitetura e obras de arte aqui nossos leitores vão dormir certamente.

Agora sem brincadeira visitamos lugares incríveis, museus inacreditáveis, aprendemos sobre arte e experimentamos o gostinho de uma sociedade em que a maioria das coisas funciona e em geral (via de regra não significa 100% das vezes) constatamos que o calor humano (do sul) é inversamente proporcional à organização e ordem (do norte). Os detalhes dessa vez a gente conta pessoalmente ou individualmente, temos países para colocar em dia com o blog e a Europa comparada com o que a gente já encarou é uma moleza.

Então com vocês na ordem louca em que a gente fez, só pra registrar lá vai: depois de Madrid a famosa e bela Barcelona dos prédios de Gaudí. Aline fazendo pose é claro na frente da La Pedrera e da Casa Batlló a qual visitamos por dentro (vale a pena!!!), La Sagrada Familia, o centro, Las Ramblas, o Parc Guell, a Barceloneta, o Port Vell.

A cidade é realmente linda e viva em cores, formas e pessoas. Lá nos encontramos novamente com o Diego que foi com o Preto assistir a um jogo do Barcelona. Enquanto os guris se divertiam no estádio eu corria para tentar colocar o blog em dia. E lá vamos nós!!

Uma parada em Marseille, no sul da França, onde fica o famoso Castelo Château d’If em que se passa a história do Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas (quem gosta de ler leia quem gosta de ver veja, há inúmeras versões em filmes). De lá para Roma, sim, mega jornada, bunda quadrada, horas e horas de busão para enfim a recompensa. Ah, nada como matar a fome comendo um sanduíche de 3 Euros na frente do Coliseu né. O contraste das ruínas com os prédios coladinhos e ruas estreitas tem seu charme.


Roma por si só já é fantástica, porém não esqueçamos do Vaticano.O menor país do mundo, com seu dinheiro, correio, tudo local. A Basílica de São Pedro com a Pietá de Michelangelo é ponto alto certo e o Museu do Vaticano é imperdível, mesmo quem não se interessa por arte, quem está com pressa ou sem grana, dá um jeito e vai. Vale a pena dar uma olhadinha no teto da Capela Cistina e em todo resto (Venus de Milo, pinturas do Rafael,...).


De Roma para Paris acreditem numa só viagem, haja vontade. A cidade das luzes, do Louvre, Do Arco do Triunfo de Napoleão, da Torre Eiffel, da Champs-Élysées, da Bastilha, Da Catedral de Notre Dame, do Rio Sena, da Amélie Poulain, da Carla Bruni, onde as pessoas falam lindamente apesar de falarem pouco com você.

Para nós foi muito corrido, ficamos hospedados na casa da Donna que morava um pouquinho afastada da cidade e acabamos perdendo um bom tempo nesse trajeto. Três dias passaram voando e não foram nem perto de suficientes, mesmo assim nossos olhinhos brilharam com cada coisa que vimos. A Torre pela qual todo mundo pergunta sim achamos linda (apesar de saber que há quem não ache), o Louvre, vishhhh, em seis horas vimos correndo pouco mais da metade e a Monalisa sim ela está sorrindo, mas só quando olha diretamente pra você.

Em Bruxelas um momento especial, nos encontramos com o Benjamim, Lawrence e Essinam, os primeiros gringos que hospedamos no Brasil quando morávamos em Natal e havíamos acabado de descobrir o couchsurfing.

Eles que na época viajavam há mais de um ano pela América do Sul com certeza foram um incentivo para que começássemos a planejar nossa jornada. Dessa vez eles que nos hospedaram e nos apresentaram a grande variedade de cervejas belgas bem como as deliciosas comidas locais. Da Bélgica diretamente para Holanda, enfim a vez de Amsterdam cidade que habitava nossa curiosidade desde sempre.

Não tem como escapar, todo mundo que chega vai parar direto lá, no “distrito da luz vermelha” traduzindo ao pé da letra. Entre as ruas repletas de bares e coffee shops (que vendem maconha legalmente) há inúmeras vitrines ou janelas de prostitutas com os mais diversos estilos. Loira sarada, quarentona, gordinha, fashion, brega, e algumas tão turbinadas e produzidas que com certeza devem ser super estrelas do mundo pornô.

A primeira vista a cidade parece meio temática até, tipo a Disney do sexo e das drogas, um tanto turística e comercial demais inclusive. Acontece que saindo um pouquinho dali, de preferência a bordo de uma bike local para entrar no clima talvez não exista cidade européia mais encantadora que Amsterdam.

A estrutura é toda circular, o calçamento e calçadas se confundem, os canais estão por toda parte e as casas barco dão um toque especial.

Os prédios têm a fachada reta e lisa, mas quando vistos a certa distância percebe-se que são todos irregulares (bem tortos mesmo). Tivemos um dia muito frio e nublado e outro muito úmido com uma chuvinha que às vezes virava neve, mas mesmo assim quase congelando não sossegamos, andamos por tudo e amamos Amsterdam. E aí, sentiu o ritmo? Então respira fundo que em poucos dias tem um novo post com o mesmo gás.

domingo, 4 de janeiro de 2009

E no meio está a Turquia

Feliz Ano Novo pro mundo todo. A viagem começou em 2008, mas continua em 2009, para quem acha que já está de bom tamanho saiba que ainda tem muita estrada pela frente. No mais não se preocupem que conosco está tudo bem, como aconteceu na China que nos escapamos por pouco do terremoto dessa vez escapamos a tempo também dos atentados em Israel ou Palestina, uma sorte que muita gente infelizmente não teve.

Nossos caminhos seguiram em direção à tão esperada Turquia e a primeira parada foi em Istambul, uma cidade bastante mística na nossa imaginação. Desde os tempos do colégio em que todo mundo estuda a grande porta de entrada para a Ásia, sultões e haréns, Bizâncio que vira Constantinopla e finalmente Istambul.

A invasão pelos turcos otomanos marcando o fim da Idade Média na Europa e o domínio islâmico na região. Se me perguntassem (Aline) antes do início da viagem qual a cidade que mais me despertava curiosidade provavelmente Istambul fosse a resposta. Talvez por isso (quanta expectativa mesmo que inconsciente) é que nossa primeira reação ao chegar lá foi a de “ah, eu esperava mais”.

Não dá pra esquecer que antes da Turquia já havíamos passado pela Índia (Ásia de fato) e países árabes. Sendo assim as características asiáticas “lights” de Istambul não nos impressionaram logo de cara, além do que o islã da Turquia bem como o povo de lá não tem nada a ver com os árabes aos quais estávamos acostumados.

Parece fácil, mas não é. De alguma forma nosso cérebro estava programado para conectar muçulmano com árabe e até conseguir parar com isso, identificar quem é turco, suas roupas, seu estilo de vida, sua dinâmica social levou um certo tempo. Mas depois que caiu a ficha, só foi, e daí sim conseguimos entender e apreciar mais a gigantesca Istambul e o restante da Turquia que conhecemos.

O Estreito de Bósforo divide ao meio a cidade de quase 20 milhões de habitantes. Ao leste fica a parte asiática e a oeste a parte européia, se bem que hoje o país todo pode ser considerado parte da União Européia. Processo polêmico e controverso, o Euro ainda não está em vigor, alguns países foram radicalmente contra a inclusão da Turquia, mas mesmo assim ela foi aprovada.

Ficamos hospedados no apartamento de uma família. Um casal com um filho mais ou menos da nossa idade. Todos gente finíssima, do bem. Mesmo falando pouco inglês o casal nos levou para passear de carro até a parte mais alta da cidade, nos prepararam um café da manhã tipicamente turco e foram muito atenciosos.

Na casa tudo no estilo ao qual estamos acostumados, só depois de muito tempo é que fomos descobrir que a família era muçulmana. Ela e a maioria das outras. Foi bom para abrir nossa cabeça e aprender a desvincular a imagem muçulmana de extremista. Nas ruas de Istambul muita diversidade, de especiarias e sheeshas passando por Mc Donalds e lojas da Gucci e Chanel.

Muçulmanas muito bem vestidas, com botas e casacos da moda, mas a maioria ainda assim com a cabeça coberta. Mesquitas, inúmeras, por toda parte. A principal e mais famosa delas, chamada Mesquita Azul fica na praça Sultanahmet de frente para a Igreja Católica Aya Sofya (cor de rosa). A arquitetura das duas é parecidíssima e até engraçado ver como as duas se opõem, mas não tem jeito, o islamismo por aqui é soberano.

Um dos ícones da cidade é o Topkapi Palace, um gigantesco complexo de prédios e jardins que servia de palácio para Sultões desde o século XV. Só o harém tem mais de 400 quartos, mas dizem que nem todas que moravam lá eram mulheres do sultão, tinha avó, prima, cunhada essas coisas. Mesmo assim digamos que monogamia não era o forte dos homens naquela época.

Saímos de Istambul e nos embrenhamos pelo interior do país até uma região conhecida como Cappadoccia. Um lugar que de tão diferente e especial pode ser considerado até encantado.

Goreme foi a nossa base, cidade construída entre as formações únicas e típicas da região. Quase todas as casas são dentro de cavernas e pela volta os mais belos e inacreditáveis vales que se possa esperar.

Fizemos várias trilhas passando por rochas que se pareciam com cogumelos, merengues, e... bem... daí vai da imaginação de cada um, mas que algumas tinham formas bem fálicas isso tinham.


Pelo caminho diversos tipos de uvas bem docinhas, já que a região é produtora de vinho, delícia. A natureza tem seu crédito por se apresentar assim, mas as pessoas que moram ali colaboram para fazer da Capadoccia um dos lugares mais incríveis em que já estivemos.

Nas redondezas existem duas cidades subterrâneas, cidades mesmo, enormes, que serviam de refúgio nas épocas de guerra. Foram dias mágicos, o frio começou a se apresentar e toda noite nos aquecíamos na beira do fogão à lenha comendo castanhas e tomando vinho. Preparação para encarar o frio de verdade que nos aguarda. Início do Inverno no hemisfério norte e a gente seguindo rumo à Europa de fato.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Nas areias róseas da Jordânia

Jordânia. País árabe muçulmano dentro do Oriente Médio, é meu amigo...aqui as coisas são diferentes. Apesar de ser um reino governado por um rei bem jovem e aberto para questões econômicas mundiais, o país ainda conserva fortes influências beduínas e da sua vizinha Arábia Saudita. Mesmo assim ainda é considerado o mais aberto da região e o junto com a Turquia são os únicos que reconhecem Israel como um Estado.

Isso na teoria, porque na prática quem disser que esteve em Israel será ignorado ou alvo de caras feias (na melhor das hipóteses). Aqui, todo o território que envolve Israel e os territórios palestinos deve ser chamado de Palestina e ponto final. Enquanto a rainha belíssima posa sorridente para fotos com longos cabelos escovados à mostra, nas ruas de Amã (a capital do país) quase não se vêem mulheres.

Mesmo nos serviços de limpeza, nos bazares e mercados de roupas, funções em que estamos acostumados a ver uma maioria feminina trabalhando, aqui quem faz são os homens. Mulher na rua só acompanhada e com cabeça e pescoço bem cobertos, com exceção das estrangeiras. Uma questão muito séria que está longe da estar sob controle é o assassinato de mulheres por membros de sua família.

Segundo as tradições locais se o marido ou família de uma mulher se sentem desonrados por ela, podem matá-la. Isso inclui adultério ou perda da virgindade antes do casamento, mas é muito subjetivo e dificilmente existem provas dos fatos, às vezes basta uma suspeita. A lei não aceita, mas também não pune devidamente esses crimes e assim assassinos podem acabar apenas alguns dias na prisão ou até mesmo impunes.

E essa é a impressão que tivemos da Jordânia, um país com raízes árabes muçulmanas muito fortes, porém sem a mesma quantidade de petróleo e riquezas que seus vizinhos. Sendo assim se vê obrigada a se abrir um pouco tanto para uma relação mais cordial com Israel quanto para o capital estrangeiro que vem chegando e privatizando tudo pelo caminho. Não que seja uma questão de vontade e sim de necessidade.

Amã é uma cidade muito rica historicamente, tem várias ruínas da época da ocupação Romana bem como verdadeiros tesouros arqueológicos. Instrumentos e arte feitos pelo homem há 7 mil anos, sendo assim, alguns dos mais antigos que se tem conhecimento.

Tem muita gente rica andando de Mercedes, mas também tem muita gente pobre. Quase tudo é da mesma cor, com aquele tom pálido de deserto e ao andar pelas ruas tivemos uma sensação engraçada, do tipo “olha só onde a gente está”. E começar a adentrar o mundo árabe de verdade nos deu vontade de não parar por aí.

De ver o extremo, como realmente é dentro da Arábia, Irã, Afeganistão, onde até eu (Aline) teria que vestir burca. Só que agora é tarde de mais, dessa vez não vai dar, não com esse passaporte. Ah, mas ainda tem muito tempo pela frente e com certeza em breve a gente volta pra essas bandas.

Em Amã ficamos hospedados na casa do Sushi um menino de 21 anos que trabalha como guia e bar man, tem cara de tailandês, fala inglês perfeitamente e vive uma vida muito agitada. A casa era uma bagunça, entra e sai de gente toda hora e festa todas as noites. Conversamos com ele pra tentar entender melhor aquela situação. Sushi nos disse que seu pai árabe conheceu sua mãe durante uma viagem à Tailândia, casou-se com ela no Egito e levou-a para morar na Arábia Saudita. Lá ele nasceu e cresceu, a primeira vez que viu o rosto de uma mulher (sem ser o de sua mãe e sua irmã) foi durante uma viagem à Jordânia quando ele tinha 14 anos.

Ele disse que não se enquadrava naquele mundo e se mudou para a Jordânia primeiramente como objetivo de estudar, porém as coisas mudaram. Após ver as tatuagens e piercings do menino, o pai simplesmente cortou todas as relações com o filho, sejam financeiras ou pessoais. Daí Sushi largou os estudos e foi trabalhar, disse que aprendeu inglês assim, atrás do balcão de um bar. Alugou um apartamento com um americano que a partir daí passou a ser o refúgio para todos seus amigos jovens que vivem o mesmo dilema, mas continuam morando com suas famílias.

Em uma situação específica estavam lá alguns amigos, um cristão e alguns muçulmanos, numa discussão religiosa e ideológica fervorosíssima, entre eles um jovem descendente de uma família muçulmana importante. O cara sabia muito de história, falava vários idiomas, mas estava totalmente perdido.

Cabelos compridos, recentemente alugando um lugar onde ele poderia levar as estrangeiras com quem gostava de dormir (desde que não fosse sempre a mesma), mas com a angústia da pressão do pai que impôs o limite de um ano para que ele se casasse. E disso ele não poderia fugir. De Amã seguimos para o sul da Jordânia até Petra, considerada uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo. Quem já viu Os Flinstones e se lembra de Bedrock sabe o que imaginar.

Hoje é somente um sítio arqueológico, mas no passado foi uma importante cidade e rota comercial. Estradas, casas, mausoléus, igrejas e estradas, tudo esculpido ou escavado diretamente na rocha cor de rosa.

O lugar é impressionante, mas caro... só que dessa vez demos sorte e ao chegarmos na cidade conhecemos dois gringos que estavam indo embora e ainda tinham o ingresso para um dia. Resultado: conhecemos Petra de graça, foi corrido, apenas 5 horas para ver tanta coisa linda, mas valeu!

Próxima parada: Wadi Rum, um dos desertos da Jordânia e tido como um dos mais bonitos do mundo. Estávamos meio apreensivos porque nossa experiência anterior em deserto para quem se lembra (e agente não esquece) foi digamos bem tempestuosa. Que lugar lindo! Olha que não é mais qualquer coisa que nos surpreende, mas o Wadi Rum conseguiu. Passamos o dia todo entre dunas de areia cor de rosa, rochas e montanhas esculpidas pela natureza nos mais diferentes formatos.

Dá uma sensação de paz gigante, bem como a impressão de ser tão pequeno no meio de toda aquela imensidão. Nossa noite foi embalada com música tradicional beduína e depois foi só colocar os colchões no lado de fora e deitar sob o céu estrelado. Dessa vez tivemos uma noite tranqüila no deserto, ainda bem. Partimos logo após o nascer do sol de volta a Amã para comer shwarma, homus e novamente colocar o pé na estrada.


domingo, 14 de dezembro de 2008

Andando na Terra Santa

Chegamos a uma etapa da viagem que rendeu boas discussões. Desde o início era um lugar pra onde eu (Aline) queria porque queria vir. O Augusto, no entanto era mais receoso devido a tanta coisa que víamos nos jornais e pelo fato de termos planejado nossa chegada aqui com muita antecedência.

Ou seja, não tínhamos como saber se quando finalmente chegasse a hora do Oriente Médio as coisas por aqui estariam tranqüilas ou homens-bomba estariam explodindo nos territórios palestinos. E assim ficou tudo meio em aberto deixando a decisão de qual seria nosso itinerário na Terra Santa para a última hora.

A situação é complicada demais para explicar aqui em poucas palavras, mas pelo que a gente entendeu dois dos principais habitantes da região brigam pelo território entre si. Muçulmanos descendentes de árabes e judeus (vindos principalmente durante o período das guerras mundiais). Os árabes não reconheceram de jeito nenhum a formação do Estado de Israel, atacando-o um dia depois de sua formação oficial. Muitos dos muçulmanos que viviam na região fugiram em busca de segurança e com a vitória de Israel não puderam voltar para as terras em que moravam passando a viver em países vizinhos como refugiados ou em territórios restritos dentro de Israel.

Os palestinos não se decidem pela formação de um estado palestino-árabe, pois assim estariam limitando seu território e a possibilidade de anexar mais terras, enquanto isso Israel se arma e controla as fronteiras com a Faixa de Gaza e Cisjordânia. E de vez em quando alguém resolve se explodir com tudo em volta. O conflito já dura anos e parece que não tem hora marcada para chegar ao fim. Sempre que um lado se sente atingido é muito provável que queira revidar. Quem sofre com isso são os civis tanto de um lado quanto de outro, porque no final das contas são todos seres-humanos e acreditam em Deus independente do nome que dão a ele.

Algo que no meio a tanta coisa se transforma em um pequeno detalhe, pequeno mesmo, porque quem vive lá não dá muita importância pra isso é que Belém na Cisjordânia é o local onde Jesus Cristo nasceu. Jerusalém em Israel é onde ele viveu, foi crucificado e ressuscitou, ou seja dois lugares super-sagrados para o cristianismo e Igreja Católica. O mesmo Jesus para o qual foram construídas inúmeras Basílicas sofisticadas cheias de ouro das Américas na Europa. Mas calma, ainda tem muito chão até chegar em Jerusalém, ainda nem saímos do Egito.

Antes de entrar no meio da confusão decidimos prestigiar uma figura que é importante e profeta para as três religiões, o Moisés. Nos dirigimos ao Monte Sinai não na tentativa de receber os 10 mandamentos e sim de ver um nascer do sol inesquecível. Mas como chegar ao topo do Sinai (segundo maior pico do Egito) antes do nascer do sol? Só subindo na madrugada, oba uma dessas a gente ainda não tinha encarado.

Trilha subindo montanha de madrugada, cercados de beduínos e camelos, temperatura se aproximando dos 0 graus é bem assim que a gente gosta. Principalmente se várias estrelas cadentes nos acompanham pelo caminho e o visual lá de cima é...bem, sem palavras, ta aí pra quem quiser ver.

Da península do Sinai seguimos para a fronteira entre Egito e Israel e de lá para o Mar Morto, que fica na região mais baixa do planeta, a cerca de 417m abaixo do nível do mar. Nosso passaporte foi marcado com o carimbo de Israel e por causa disso agora não podemos mais entrar na Síria, Arábia e Líbano usando o mesmo.

Paramos em Eingedi para nos banhar, ou melhor, boiar nas águas salgadas do Mar Morto. A água é muito salgada, bota salgada nisso, chega a arder e assim que seca esfolia a pele, é só andar 50 metros pra se assar todo.

Não precisa nadar, pode entrar na água, cruzar as pernas e os braços que bóia de qualquer forma. Experimentamos a famosa lama que é vendida sob a forma de cosméticos a um preço mais salgado que o próprio mar só que para nós não custou nada. Lama milagrosa, com certeza depois dela ficamos muito mais bonitos!!!

Desde que se coloca o pé em Israel já é possível sentir o clima. Tem que explicar direitinho de onde vem, pra onde vai, passar bagagens no Raio-X duas vezes, abrir bagagens e tirar tudo pra fora, tudo isso sempre cercado de jovens armados.

O serviço militar é obrigatório por 3 anos aos homens e 2 às mulheres, sem exceção. Então chovem jovens fardados e armados pra tudo que é lado e além disso muita gente também tem porte de arma. Conclusão: dá até medo porque onde quer que tu olhes tem um cano de revolver, tomara que não na tua direção.

Em Jerusalém não é diferente, mas o que mais chama a atenção são os judeus ortodoxos. Tem uma parte da cidade em especial que é quase que uma bolha, só se vêem eles, todos praticamente iguais, calça e casaco pretos, camisa branca, corte de cabelo curto com cachos compridos nas costeletas e chapéu. Ficamos hospedados na casa do Noam e da BatSheva, um casal judeu que nos respondeu um zilhão de perguntas que a gente tinha sobre o judaísmo e toda situação da região.

Visitamos também o Museu do Holocausto Yad Vashem no qual entramos mudos e saímos calados depois de ver com detalhes o horror que aconteceu com essa gente durante a Segunda Guerra Mundial onde aproximandamente 10 milhões de judeus foram mortos. Com tudo isso dá pra tentar começar a entender essas pessoas com roupas e cabelos que a primeira vista parecem estranhos, mas que na verdade são réplicas fiéis dos trajes que eles usavam na Europa nos tempos de guerra. Ou seja, uma maneira de dizer que eles resistem apesar de terem sido vítimas de uma tentativa de extermínio.

Jerusalém é território israelense, Belém é território palestino, poucos quilômetros e uma rígida fronteira separam as duas cidades, no entanto cada uma parece pertencer a um mundo diferente. Belém é uma típica cidade árabe muçulmana oriental, aproveitamos uma tarde para visitá-la e conhecer o local que acredita-se ser onde Jesus Cristo nasceu. Uma estrela dourada no chão marca o lugar exato dentro da gruta sobre a qual hoje existe uma igreja.

De volta a Jerusalém, ou melhor, a antiga Jerusalém, cidade murada separada em quatro quadrantes: um armênio, um muçulmano, um judeu e um cristão. Visitamos o Muro das Lamentações na parte judia, com espaços separados para homens e mulheres e milhões de papeizinhos com pedidos, orações e agradecimentos enfiados nos vãos entre as pedras.

Na parte cristã subimos o Monte das Oliveiras e estivemos onde Maria nasceu, no local da última ceia, na gruta onde Jesus foi traído por Judas e preso, acompanhamos o trajeto da Via Crusis até o lugar onde supostamente houve a crucificação e a ressurreição. Ao mesmo tempo que todo esse trajeto é sensibilizante existe sempre aquele ar de pode ser que não seja bem assim já que se sabe que a Jerusalém de dois mil anos atrás não é a mesma de hoje. A cidade era menor e várias outros blocos foram construídos sobre as construções originais, além disso os muros foram expandidos algumas vezes.

A gente sabe que tem muito comércio em jogo, já que a Via Sacra passa por um grande mercado de souvenires, mas mesmo assim a parte antiga de Jerusalém vale a pena.

Muito da parte nova tem cara de ocidente, todo mundo fala inglês além de hebráico. O custo de vida é alto e dizem que muita grana vem dos judeus americanos para sustentar as forças armadas. Conversamos com alguns jovens locais e contamos nossas experiências refazendo o trajeto de Cristo, após notar uma certa indiferença ainda deu tempo pra uma última pergunta antes de seguirmos o nosso rumo. “Como vocês enxergam Jesus?” A resposta veio assim: “foi só um cara que veio e fez uma baita bagunça.

Dessa forma fechamos mais um capítulo da nossa viajem. Novamente abordando questões religiosas e como elas influenciam a dinâmica do mundo. Aproveitando para dizer aqui que na nossa opinião as crenças de cada um não justificam preconceito muito menos violência. Paz no Oriente Médio.